Era uma vez uma velhota, que
morava numa casinha à beira da serra.
Quando queria visitar os netos, que
moravam longe, tinha de dar uma grande volta, para não atravessar a serra, onde
havia muitos lobos.
Mas um dia em que a velhota foi ver os
netos, resolveu ir pela serra por ser mais perto.
No caminho encontrou um lobo que lhe
disse:
- Onde vais, velha?
- Vou ver os meus netinhos.
- Não vais, não, que eu como-te!...
A velha pediu ao lobo que não a
comesse ainda, porque estava muito magrinha. E dizia mais isto:
- Os meus netos tratam-me sempre muito
bem, eu engordo e, depois, à volta, tu comes-me. E trago-te também arroz-doce
para a sobremesa.
Então o lobo deixou-a ir.
Mais adiante, encontrou outro lobo a
quem contou a mesma história. E o lobo deixou-a ir.
Assim, a velhota chegou a casa dos
netos, que a receberam e trataram muito bem.
Quando lhe apeteceu voltar para casa,
os netos não a queriam deixar voltar pelo caminho da serra, por causa dos
lobos. Mas ela, que era uma velha corajosa, teimou que ia, mas dentro de uma
cabaça grande para se proteger. Deram-lhe a cabaça, ela enfiou-se lá dentro e
toca a andar que se faz tarde...
Um dos lobos, quando viu a cabaça,
perguntou-lhe:
- Ó cabaça, viste por aí uma velha?
A velha dentro da cabaça, disfarçou a
voz e cantou assim:
- Não vi velha nem velhinha
Não vi velha nem velhão.
Corre, corre, cabacinha
Corre, corre cabação.
E pôs-se a correr.
Mais adiante, encontrou outro lobo que
também lhe perguntou:
- Ó cabaça, viste por aí uma velha?
E a velha enquanto corria, respondia:
- Não vi velha nem velhinha
Não vi velha nem velhão.
Corre, corre, cabacinha
Corre, corre cabação.
Assim chegou a casa sem que nenhum mal
lhe acontecesse.
António
Torrado

